O blog Caixote Amarelo nasceu com a proposta de dialogar apenas com os livros de relatos, as biografias. Para minha surpresa, bons ventos sopraram durante essa empreitada e outros tipos de livros ganharam espaço. Digo empreitada porque já seria difícil pra caramba abrir o bloco de notas e escrever o que sinto sobre as obras e como elas me afetam, de maneira positiva ou não. Tudo fica ainda mais complexo quando clico em "publicar". Te vejo dentro do caixote.

Por Renata de Sá.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O dia que Gay Talese foi enganado por si mesmo

Gay Talese é um gênio (e ponto).
Um dos nomes mais famosos do chamado new jornalism – uma mistura que combina técnicas do romance com a não ficção, o escritor é uma máquina de publicar best sellers. Estudado em universidades de comunicação do mundo todo, fui mais uma que leu seus livros.

Porém, até mesmo os gênios podem cometer falhas. Em O voyeur, sua mais recente obra, Talese foi enganado por si mesmo. Não há como saber quais motivos levaram um talentoso escritor, experiente no campo do jornalismo, esquecer da primeira coisa que qualquer estudante de comunicação aprende nos primeiros dias de aula: checar, checar e checar... e na dúvida, checar novamente.

O voyeur conta a história de um homem que comprou um motel e o adaptou para conseguir bisbilhotar o que ocorria com os hóspedes na intimidade dos quartos. O proprietário o fez por anos e ainda manteve tudo registrado em um diário.

No entanto, os primeiros conflitos da história acorrem durante o período de apuração dos fatos – um deles é sobre as datas em que o motel foi comprado e o início dos registros, ocorrido 3 anos antes. Em outro momento, um possível assassinato foi presenciado num dos quartos, só que não existia nenhum registro da polícia.

Apesar de saber sobre esses buracos na história, o escritor continuou a escrever o livro. Quando os primeiros trechos começam a ser divulgado para a imprensa, rapidamente outros trechos confusos começam a aparecer. Mesmo o diálogo com o proprietário do motel ter iniciado há 30 anos, o livro só foi publicado recentemente; isso daria tempo e mecanismos para o escritor confirmar alguns dados, inclusive o mais grave deles, a venda da propriedade – fato nunca relatado pelo voyeur e muito menos checado por Talese.

Embora tenha afirmado categoricamente em algumas passagens da história que não podia confiar na sua fonte, Gay Talese cometeu o maior erro de todos – não confiar 100% na sua própria pesquisa –, e assim, ser enganado por si mesmo. 

O voyeur – o grande jornalista americano em uma reportagem sobre obsessão e morte”, de Gay Talese
Companhia das letras – 272 páginas

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Falta tudo, inclusive humildade no mercado editorial infantil

(No espaço de leitura do parque da Água Branca
- crédito: Lucia Lopes)
Para quem está inserido do mercado editorial infantil, como leitor, professor, mediador, produtor, sabe que os últimos tempos foram agitados. Considerada por muitos uma produção menor, capaz de fazer a estudiosa Maria Teresa Andruetto pedir para retirar o adjetivo “infantil” das conversas, das publicações, nunca se falou tanto dessa literatura.

Apesar do tema estar em foco, parece que estamos longe de um democrático debate.

Quem acompanha pelas mídias sociais a respeito do livro Peppa, por exemplo, entende bem o momento em questão. Até mesmo fora da internet o assunto tem tocado um número de pessoas dispostas a entender o que está acontecendo.

No último sábado, a Casa Tombada em parceria com o espaço de leitura do parque da Água Branca, reuniu um poderoso time de escritores, ilustradores e editores para falar sobre a literatura infantil no Brasil. Entre os convidados, Eva Furnari, Aline Abreu, Zeco Montes, Márcia Leite e Maria José Nóbrega com mediação de Cristiane Rogério.

Apesar de todos concordarem que o livro infantil é uma possibilidade de respiro em meio ao cotidiano e à realidade, ele está muito longe de seus outros companheiros de prateleiras. Falta tudo para a literatura infantil: divulgação, espaço para apostas em novas talentos, para a atuação de artistas consagrados, apoio público (com a exclusão de compras governamentais, como o PNBE), profundidade no assunto dentro das universidades, mas que principalmente, tem faltado humildade.

A escritora e ilustradora Eva Furnari aponta para a dificuldade nas pessoas em ouvir críticas. A editora Márcia Leite já segue pelo caminho de que falta diálogo entre editores/ilustradores/autores nas grandes editoras. Até mesmo, um fato apontado coletivamente, que foi o de não dizer nada. As mídias sociais parecem que nos obrigam a dizer, ter uma opinião sobre tudo. Às vezes, não dizer, é também uma postura humilde.

Tem alguma coisa muito errada no mercado editorial infantil. Só que essa coisa, que eu nem consigo encontrar um nome, não está, necessariamente, dentro dos livros, mas sim em algumas pessoas que estão produzindo, lendo, opinando e decidindo o que pode e o que não pode sobre esse títulos, sem conseguir ao menos olhar ao redor e perceber o outro. Precisamos falar muito mais sobre literatura infantil. Só que de uma maneira mais humilde.

"Por uma leitura apaixonada - evento em parceria com a Casa Tombada e o espaço de leitura do parque da Água Branca"

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Onde nasce a censura na literatura infantil?!?


O final de semana foi repleto de atividades preocupadas em discutir, aprender e conviver com os livros voltados para o público infantil. Dentre os eventos que ocorreram na capital (SP), podemos destacar um bate-papo na livraria Martins Fontes, em comemoração aos 25 anos da editora Companhia das Letrinhas.

O evento trazia uma temática espinhosa, que é a censura nos livros infantis. A primeira mesa, formada pelos escritores e ilustradores Odilon Moraes e Patricia Auerbach com a participação de Ana Carolina Carvalho, do Instituto Avisa lá, que tem como objetivo a qualificação prática pedagógica nas escolas públicas de ensino infantil, procurou debater os motivos que levam determinado assunto ser tachado como impróprio e proibido nas escolas.

A segunda mesa, formada pelo escritor Ricardo Azevedo, por Sandra Medrano - (Comunidade Educativa CEDAC), e Mara Dias - (Colégio Rainha da Paz) apontou para o que são temas tabus e porque alguns deles, na opinião da mesa, são considerados tabus, mas não entram para essa lista, como a pobreza, por exemplo.

Mesmo com pensamentos distintos, ambas as mesas voltavam na questão da qualidade literária que os professores precisam alcançar para conseguir conduzir uma boa mediação e sobre o pouco tempo que as escolas dedicam para a prática do ócio criativo, que seria ler pelo simples ato de ler também indicam os baixos índices de leitura na população.

Porém, a participação e até o veto de pais e responsáveis, principalmente em escolas particulares, foi uma das partes mais calorosas do debate. O caso mais recente ocorreu com o livro Enquanto o sono no vem, retirado das escolas por ser considerado inapropriado para as crianças. {Caixote Amarelo já escreveu sobre isso} http://www.caixoteamarelo.com.br/2017/06/o-triste-fim-da-triste-historia-de.html

Odilon Moraes apontou para a linha tênue que separa cuidado de censura dos pais. Muitas vezes, incapazes de discutir sobre determinados assuntos com os filhos, como drogas, gravidez, sexo, morte, doença, pobreza, entre outros, os adultos preferem fingir que eles não existem, e dessa maneira, que a escola também não aborde esses temas.

De acordo com as mesas, esse excesso de zelo acaba colocando a criança numa bolha em que os únicos finais possíveis são aqueles em que “todos viveram felizes para sempre”. O que muitos pais, professores e até mesmo as instituições de ensino se esquecem, é que essas crianças estão soltas, vivendo, assistindo, convivendo com situações que, nem sempre, têm um final feliz. E tá tudo bem também. Eles estão dando conta do recado.

Talvez, o que falta nos adultos, é acreditar um pouco mais na capacidade dessas crianças de olharem para algo complexo, absorverem aquela situação e conseguirem viver, se não numa boa, pelo menos percebendo que o mundo não é tão cor de rosa assim.

"25 anos da Editora Companhia das Letrinhas" - na Livraria Martins Fontes

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Música de brinquedo 2, do Pato Fu, é infantil, mas não apenas para crianças

(Música de Brinquedo 2 - Pato Fu/Crédito: Licallegaripic)
Em comemoração ao Dia das Crianças, a banda Pato Fu, se apresentou no Sesc 24 de Maio com um espetáculo montado apenas com instru- mentos musicais de crianças e brinque- dos. E tinha de tudo: pianinho, sax de plástico, tecladinho... até mesmo aquelas flores de brinquedo que se movem quando uma música está tocando.

Apesar do show parecer feito para crianças, ele não é. Ou pelo menos, não exclusivamente voltado para os pequenos. Isso se dá, principalmente, pelo repertório bastante nostálgico escolhido pelo grupo. Olhando para o público, é notável o acerto feito pela banda. Quando se tem filhos pequenos, cabem aos pais, muitas vezes, acompanhar as crianças em espetáculos focados naquela faixa etária e nem sempre os adultos se divertem.

(Crédito: Licallegaripic)
Mas Música de Brinquedo 2 possibilitou unir a brincadeira de criança com a alegria dos adultos. Mesmo sem conhecerem, prati- camente, todas as músicas tocadas, como Severina Xique-Xique, de Genival Lacerda; Livin la Vida Loca, de Rick Martin; Mamãe Natureza, de Rita Lee; I Saw You Saying, de Raimundos, e até mesmo músicas do próprio Pato Fu, os pequenos brincaram e se divertiram com os bonecos da companhia Giramundo, que tinha como função representar as crianças no palco, com o cenário e com os brinquedos.

As crianças se divertiram como numa grande festa de carnaval. E os adultos, numa grande festa de volta ao passado.

Música de brinquedo 2”, com a banda Pato Fu – Sesc 24 de Maio


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Das pequenas grandes maravilhas que Eliane Brum escreveu

(Crédito: Vivos Olhares/Anna Ligia Machado)
“O mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos. Di- minutos, invisíveis. O mundo é salvo pelo avesso da impor-tância. Pelo antôni- mo da evidência. O mundo é salvo por um olhar. Que envol- ve e afaga. Abarca. Resgata. Reconhece. Salva. Inclui”.

É assim que começa A vida que ninguém vê, de Eliane Brum. Eu poderia dizer que é o livro que dá voz aos esquecidos. Ou que a escritora vê o que ninguém mais enxerga, ou não quer enxergar. Poderia ainda dizer que o texto dela muda uma vida. Mas tudo isso seria pouco para descrever o poder que essa talentosa escritora tem em combinar palavras e sentimentos.

“Esse texto poderia acabar aqui, porque tudo já estaria dito”, como ela mesma aponta em outro trecho do livro. Porém, se um mundo é salvo pelos pequenos gestos – invisíveis e que afagam – posso me considerar parte de um grupo que já teve um dia salvo por causa de Eliane. Em 2013, tive a felicidade de editar um conto dela na antologia Entre as quatro linhas – contos sobre futebol. De longe, o texto mais marcante e meu preferido, confidenciado a ela no dia do lançamento.
(A garota do Caixote Amarelo
e a escritora Eliane Brum)

O que eu poderia contribuir em um texto perfeito, eu pensava? E de novo retomo as palavras de Eliane, e a resposta veio num olhar, seguido de um sorriso que envolveu, afagou, reconheceu, salvou e, principalmente, incluiu. Quantas Elianes estão por aí salvando o dia e quantas pessoas, assim como eu, tiveram o privilégio de serem salvas pela palavra escrita em um livro?

“A vida que ninguém vê”, de Eliane Brum
Arquipélago editorial – 204 páginas
“Entre as quatro linhas – Contos sobre futebol”, 
organização Luiz Ruffato
Editora DSOP – 188 páginas

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Caixote Amarelo lista os melhores livros do biógrafo Fernando Morais

Reparem. Ao menor sinal de problema, ou quando as pessoas estão atrapalhadas para resolver algo, recorrem a uma lista. A de supermercado, de tarefas, de apresentação. E pode ser simples como um bloco de papel e uma caneta ou no celular. Alguns optam pela lista imaginária – vão desenhando com o dedo no ar ou fazem de cabeça mesmo. Isso mostra que somos fascinados por fazer listas. Partindo desse denominador comum, Caixote Amarelo listou os melhores livros de um dos maiores biógrafos brasileiros, o escritor Fernando Morais. 

1) O Mago
A incrível história de Paulo Coelho, o menino que nasceu morto, flertou com o suicídio, sofreu em manicômios, mergulhou nas drogas, experimentou diversas formas de sexo, encontrou-se com o diabo, foi preso na ditadura, ajudou a revolucionar o rock brasileiro”. É assim que começa uma das biografias brasileiras mais incríveis que já li. Não estou nem falando sobre a discussão se Paulo é ou não literatura, muito menos se é boa ou não, mas sim, sobre com Fernando Morais mergulha na vida do seu personagem e me fez ler em dois dias as mais de 600 páginas do livro.

2) Chatô – o rei do Brasil
Sou da área de comunicação e obrigatoriamente tive que ler sobre o dono dos Diários Associados, Assis Chateaubriand. Lembro que em uma discussão na sala de aula sobre esse ícone uma colega disse que se Chatô não tivesse falhado, a Globo não seria o que é hoje. O título de rei faz sentido porque ele comandava tudo: rádio, TV, jornal... era dono até mesmo do MASP, um dos maiores cartões postais de São Paulo. Na época da leitura, era polêmica falar sobre o tal filme da vida de Chatô que nunca saiu do papel porque o dinheiro simplesmente tinha acabado. Quase 20 anos depois, o material finalmente ficou pronto.

3) Os últimos soldados da guerra fria
Sabem aqueles filmes de espiões russos e americanos, em fugas alucinantes em missões para descobrir os possíveis ataques do inimigo? Não é sobre nada disso que o livro conta. O autor nos mostra uma vida dupla sofrida e bastante humilde dos agentes em solo americano, em uma tentativa quase infantil para tentar desvendar os segredos dos EUA, em nome da “mãe Rússia”.

4) Corações sujos
Conta a história de uma das maiores “fake news” já inventada. Em uma época em que as pessoas nem sonhavam com as redes sociais e os smartphones, se espalhou por São Paulo que a rendição japonesa na Segunda Guerra Mundial era uma fraude, dando início a uma rachadura na comunidade nipônica, causando mortes, feridos e a prisão de mais de 30 mil pessoas pelo DOPS. 

"O mago", de Fernando Morais
Editora Planeta - 630 páginas

"Chatô - o rei do Brasil", de Fernando Morais
Companhia das letras - 732 páginas

"Os últimos soldados da guerra fria", de Fernando Morais
Companhia das letras - 412 páginas

"Corações sujos", de Fernando Morais
Companhia das letras - 348 páginas
                               

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Quando ganhei um livro de um poema só

Uma vez um amigo me chamou para o lançamento de um livro. Nem faz muito tempo, mas eu não consigo lembrar onde era ou sobre o que conversamos na fila para os autógrafos, mas acho que o vinho era ótimo. Teve vinho?

Eu não conhecia a autora e acabei fazendo tudo meio no automático: pega livro, pega autógrafo, leva livro pra casa e coloca na estante. Numa dessas organizações de fim de ano, fim de namoro, fim de faculdade ou algum outro fim que nos obriga a sacudir a poeira, me reencontrei com Rua da padaria, de Bruna Beber.

Abri sem pensar e parei num poema: romance em doze linhas. “Quanto falta pra gente se ver hoje”. Aquele poema passou a me acompanhar como uma sombra invisível para quando as coisas pareciam realmente difíceis, impossíveis.

Um término de namoro, um rompimento de uma amizade, uma mudança de trabalho, uma promoção... lá estavam as doze linhas daquele poema me esperando. Dias atrás voltei novamente ao meu “minuto de sabedoria”, e curiosamente li a dedicatória: “ler na varanda com calma”.

Então, tá bom, Bruna, coloquei na minha varanda – o blog Caixote Amarelo. Assim, quem sabe ele servirá para mais alguém. E quem sabe, outro alguém leia os demais textos. Pra mim, Rua da padaria é um livro de um poema só.

“quanto falta pra gente se ver hoje
quanto falta pra gente se ver logo
quanto falta pra gente se ver todo dia
quanto falta pra gente se ver pra sempre
quanto falta pra gente se ver dia sim dia não
quanto falta pra gente se ver às vezes
quanto falta pra gente se ver cada vez menos
quanto falta pra gente não querer se ver
quanto falta pra gente não querer se ver nunca mais
quanto falta pra gente se ver e fingir que não se viu
quanto falta pra gente se ver e não se reconhecer
quanto falta pra gente se ver e nem lembrar que um dia se conheceu.”

"Rua da padaria", de Bruna Beber
Editora Record - 68 páginas

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Nunca subestime uma mulherzinha

Quando Fernanda Takai, vocalista do Pato Fu, lançou um livro não se falava sobre empoderamento feminino ou muito menos se discutia como hoje em dia a questão de gênero nas rodas de conversa. Mas, assim como o talento dela para a música, Fernanda utilizou mais uma das suas facetas e trilhou um caminho sem volta para um dos temas mais delicados e complexos da humanidade: a igualdade entre homens e mulheres.

O livro Nunca subestime uma mulherzinha mostra uma Fernanda que vai além dos palcos. Da infância, quando foi confundida com um menino apenas pelo corte de cabelo que fugia dos padrões tradicionais ao universo ficcional, quando apenas mulheres bem pequenas (“desse tamanho assim, ó”), podiam trabalhar dentro das máquinas de tíquetes dos estacionamentos, a autora faz jus ao título, dando voz a essas tais mulherzinhas.

Quem também fez isso foi uma escola na Índia chamada Shanti Bhavan, que passou a abrigar e educar crianças consideradas intocáveis, da casta mais baixa da sociedade. A série documental Daughters os destiny, da Netflix, mostra como essas garotas estão condicionadas a acreditarem que são indignas de um futuro melhor apenas porque são pobres e mulheres.

A partir da ideia de que o ciclo de pobreza pode ser quebrado com a educação, essas garotas passam anos dentro da escola aprendendo como podem se tornar líderes, ou seja aprendendo a se empoderarem. Ao saírem da faculdade, elas têm mais chances de melhorarem a condição de vida da sua família e comunidade. Um dos relatos que o documentário mostra é de uma garota que decidiu estudar Direito após ter ouvido um depoimento de um advogado humanitário sobre um cliente que teve a língua arrancada após pedir um aumento para o patrão. A jovem, durante a graduação, passou a defender a própria comunidade, quando uma pedreira decidiu tomar a terra que pertencia a sua família, vizinhos e amigos.

A série documental e o livro, cada um a sua maneira, mostram que nunca, jamais devemos subestimar o poder e a força de vontade de uma mulherzinha. Ao fazer isso, estaríamos perdendo demais.

"Nunca subestime uma mulherzinha", de Fernanda Takai
Panda Books - 136 páginas

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Não pode pegar nada do amiguinho sem pedir – exceto em Brasília


(Vista da Penitenciária Feminina da Capital, em São Paulo
- crédito Marlene Bergamo)
Se você nasceu em uma família que procura seguir as regras para se viver em uma sociedade, muito provavelmente, deve ter ouvido de um pai, de uma mãe que você não pode pegar o lápis do amiguinho de classe sem pedir. Esses adultos também devem ter ensinado o motivo pelo qual não se deve pegar o que não nos pertence, mostrando que é errado e, muitas vezes, se essa criança crescer e continuar a pegar o que não é seu, existirá uma grande chance dela pagar por isso na cadeia.

Exceto em Brasília. Exceto ainda se for um dos nossos políticos. Mais exceto ainda, se for rico. Em Prisioneiras, de Drauzio Varella, não há espaço para a exceção. Apenas para a regra. Como diz o ditado popular, a regra é clara, e as nossas cadeias brasileiras estão lotadas de criminosos (não há dúvida disso), mas principalmente, de criminosos pobres.

Das mais de duas mil mulheres que estão na Penitenciária Feminina da Capital, em São Paulo, a maioria esmagadora veio de uma classe social baixa, com pouquíssimas oportunidades e acesso à informação. Drauzio nos mostra uma realidade cruel em que, se uma mulher presa não tem, pelo menos, um ou dois filhos, provavelmente, é gay ou estéril.

Mas se estamos falando de exceções, ter dois filhos é novamente uma delas. A regra mostra que essas mulheres têm de quatro filhos para mais. As crianças, após a prisão das mães, são deixadas com parentes ou encaminhadas para um orfanato. Isso porque, mais uma vez, a regra é: muitas dessas mulheres são mães solteiras.

Lá dentro – ou até mesmo como motivo pela prisão – essas mulheres são ou se tornam usuárias de drogas (crack, principalmente). E assim como aqui fora, lá dentro elas não só utilizam como se tornam devedoras de traficantes. E cadeia tem regra própria – por mais absurdo que pareça. Divididas em um código de cores, as detentas são marcadas e têm prazos para pagar pela dívida. Vale até pedir recurso para a família e depositar direitinho na conta bancária do fornecedor.

E por falar em família, ao contrário do que ocorre nas penitenciárias masculinas, em que as filas de visitantes são gigantes – formadas na grande maioria por mulheres, mães e filhos –, as femininas são praticamente inexistentes. De acordo com o escritor, os namorados/maridos aparecem no primeiro final de semana e vão diminuindo até nunca mais as visitarem; as mães, muitas vezes, sentem vergonha de ter uma filha na cadeia (o que não ocorre, necessariamente, com os filhos homens).

As cadeias femininas estão lotadas de criminosas – mulheres pobres das periferias, sem instrução e, muito menos, boas oportunidades na vida. Elas vão sair de lá mais pobres e, com certeza, com mais dificuldades ainda de sair desse ciclo de vício, de prostituição para pagar pelo vício, e de, possivelmente, retornar para cumprir mais uma pena. Enquanto que nossos políticos (brancos, ricos e ladrões), mesmo pegando muito mais que um lápis do amiguinho, viverão bem longe dessa realidade, simplesmente porque são a exceção.

"Prisioneiras", de Drauzio Varella
Companhia das letras  290 páginas

  

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Sim, eles estão todos mortos

Quando recebi o convite do Grupo Editorial Record para escrever sobre o livro Assim na terra como embaixo da terra, da escritora Ana Paula Maia, nem imaginava o que me esperava. Sigo alguns rituais em uma leitura, sendo que o primeiro deles é me desligar do mundo externo – principalmente porque “minha hora de leitura livre” é dentro de um metrô cheio a caminho do trabalho. Antes mesmo do texto, folheio a quarta capa, as orelhas e me deparo com um relato da Marcia Tiburi indicando que a autora trouxe a colônia penal de Kafka para uma realidade brasileira.

Pronto. Puxo na memória trechos daquele livro e só consigo pensar em um estado constante de sufocamento e desconforto. Inicio a leitura esperando o pior. Sabem aquelas histórias que você vai lendo, mas já imagina 30 páginas na frente? Eu estava assim. De uma forma bastante louca me vi dentro daquela prisão, no meio do nada, aguardando um oficial que viria desativar o lugar, mas que nunca chegava.

A agonia passou a tomar conta da minha leitura. Lendo algo aparentemente rotineiro: Um preso que prepara o almoço, a minha cabeça já estava lá na frente e eu só conseguia pensar: Sim, eles estão todos mortos. Um dos prisioneiros observava o que estava acontecendo – e assim como eu, ele sabia o que viria nas próximas páginas – e, por isso, decidiu fugir. Só que para o plano funcionar, ele teria que amputar o próprio pé para escapar da tornozeleira, que segundo relatos, era capaz de explodir ao menor sinal de fuga.

Curiosamente, esse livro começou a ser lido no metrô, mas terminou na cama. Há pouco mais de cinco dias eu fiz uma cirurgia no pé esquerdo e estou imobilizada. Passei a me sentir na pele de Bronco Gil, ou pelo menos, a entender o quanto é difícil ser privado de andar livremente.

Ao decidir arrancar o próprio pé para fugir, o personagem me mostra que, mesmo privado de todos os seus direitos – alguns até bem básicos e obrigatórios – aquele homem estava disposto a arriscar. Isso só me fez entender que, mesmo tentando tirando tudo de uma pessoa, ninguém é capaz de arrancar um dos instintos mais básicos, que é a necessidade de sobreviver.

Bronco Gil, continuo a minha leitura e espero que seu instinto de sobrevivência seja tão forte quanto eu imagino. Te vejo na portão de entrada da colônia penal.

 "Assim na terra como embaixo da terra", de Ana Paula Maia
Editora Record – 144 páginas