O blog Caixote Amarelo nasceu com a proposta de dialogar apenas com os livros de relatos, as biografias. Para minha surpresa, bons ventos sopraram durante essa empreitada e outros tipos de livros ganharam espaço. Digo empreitada porque já seria difícil pra caramba abrir o bloco de notas e escrever o que sinto sobre as obras e como elas me afetam, de maneira positiva ou não. Tudo fica ainda mais complexo quando clico em "publicar". Te vejo dentro do caixote.

Por Renata de Sá.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Achava estranhíssimo quando os outros achavam o João estranhíssimo


Conheci, primeiro, o outro filho da Olivia, o Gregório. Com suas falas rápidas, ácidas e, extremamente coerentes, passei a acompanhar o que ele tinha a dizer. E o garoto dizia, dizia e dizia. Numa dessas de dizer, dizer e dizer ele disse: “Nunca ouvi, lá em casa, a palavra deficiência. Ouvíamos muito a palavra diferente, foneticamente tão parecida, mas semanticamente tão distante. Foi na rua que percebi que meu irmão era deficiente”.

Gregório escreveu esse texto para falar do livro que sua mãe lançaria: “O que é que ele tem”. Foi, então, que eu conheci o filho mais velho da Olivia, o João. Às vésperas do parto do seu primeiro filho, Olivia era apenas mais uma das milhares de mulheres apaixonadas pela ideia da maternidade, do quartinho todo arrumado, dos bebês de capa de revista até que, o destino, num golpe violento de realidade, puxou Olivia desse sonho para transformá-la numa guerreira de uma luta árdua e diária.

João nasceu com um síndrome rara. Sua má formação fez com que o menino se submetesse aos mais diversos processos cirúrgicos. Porém, doloroso era ver a incapacidade das pessoas de disfarçar a repulsa e o julgamento. A resposta foi imediata: Olivia precisava blindar seu pequeno de tudo aquilo, fazendo com que ele tivesse uma vida normal, lidando com a situação de uma forma que João tivesse as mesmas condições que qualquer outra criança.

Doce engano, Olivia. As diversas intervenções (muitas delas, confessas pela própria mãe, erradas e precipitadas) atrasaram o seu desenvolvimento. E as assertivas eram complicadas. Além disso, as escolas “tradicionais” se recusavam aceitar João, muitas nem queriam tentar o desafio, dificultando ainda mais o projeto de transformar a vida de João mais parecida com a de outras crianças.

<pausa solicitada pela garota do caixotinho>
Estava no metrô de SP quando reparei numa mãe carregando com todo cuidado seu bebê. Segui aquela mulher com os olhos e também com os pés. No banheiro de uma das estações, lá estava ela em pé, apoiando seu bebê numa espécie de trocador, alimentando-o por uma sonda – gotinha a gotinha de leite –, que saia de uma pequena seringa, percorria um caninho e seguia direto para o estomaguinho daquele bebê. Incapaz de me manter distante e calada, fui logo ajudando a segurá- -lo e puxando conversa. 

Ela me contou que estava indo a uma clínica, pois tentaria uma vaga para uma cirurgia nos olhos do seu filho, que nasceu com a mesma síndrome rara do João da nossa história. Nunca soube se ela realmente conseguiu, só me lembro de tirar o que tinha na carteira e implorar que a mulher aceitasse pegar um táxi quando descesse da estação. Ela olhou para mim e disse que aceitaria apenas porque o inalador do bebê estava quebrado e o dinheiro ajudaria no conserto.
<fim da pausa solicitada pela garota do caixotinho>

Mesmo com tamanha dificuldade (menos pelo desenvolvimento de João e mais pela ignorância + preconceito + estupidez), o filho mais velho de Olivia foi pra escola, fez terapia, trabalhou como voluntário, pedalou sozinho pelas ruas do Rio de Janeiro, arrumou uma namorada, arrumou outra namorada e está se preparando para uma vasectomia. “Sabemos que ter filhos não seria sensato. Juntos, as chances de João e Ana Clara terem sua prole com a mesma síndrome é de 75%. Cris (mãe da Ana Clara) e eu teríamos que passar por tudo de novo e nem eu nem ela estamos dispostas a enfrentar o calvário de cirurgias outras vez”.

"O que é que ele tem", de Olivia Byington
Editora Objetiva  182 páginas
Avaliação: 3 caixotinhos (de zero a cinco)

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