O blog Caixote Amarelo nasceu com a proposta de dialogar apenas com os livros de relatos, as biografias. Para minha surpresa, bons ventos sopraram durante essa empreitada e outros tipos de livros ganharam espaço. Digo empreitada porque já seria difícil pra caramba abrir o bloco de notas e escrever o que sinto sobre as obras e como elas me afetam, de maneira positiva ou não. Tudo fica ainda mais complexo quando clico em "publicar". Te vejo dentro do caixote.

Por Renata de Sá.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Miga, sua loka

Conheci Tati Bernardi na Flip-2016. O calor era sufocante e a claridade incomodava muito. Foi na tentativa de fugir disso tudo que eu entrei em uma das casas editoriais e vi pelo canto do olho um farol amarelo brilhante, gritante, implorando pela minha atenção. Era o livro Depois a louca sou eu.

Comprei, enfiei na sacola e esqueci completamente da Tati. Outro dia acordei com a sensação de que estava louca (só podia, pensei!!!) e aí me lembrei da Tati novamente. Abri o livro, torci o nariz para a biografia “colunista, roteirista” (muito ista para mim), mesmo assim comecei a ler.

Terminei um capítulo com ódio mortal dela e da sua insensibilidade. Depois li mais um pouco e me identifiquei completamente com tamanha sinceridade. Dei mais um voto de confiança e lá estava ela, a Tati, me fazendo desacreditar na humanidade. Quando sua amiga vai casar e quer fazer uma festa de despedida em Buenos Aires, você vai. Quando sua amiga quer passar o dia inteiro falando sobre o casamento e como a floricultura estava destruindo o sonho dela, você ouve. Quando sua amiga quer comemorar com todas as amigas (incluindo você) do “ballet”, você comemora (Tati, sua ingrata).

Mas aí, mesmo odiando a protagonista e querendo atirar o livro pela janela, por algum motivo, continuei a leitura. E lá estava ela: a Tati mostrando que é mais normal e menos louca do que imaginei:

“Me falaram de um monge no Itaim. Eu sei que “monge” e “Itaim” na mesma frase deveria ter disparado um alerta. Me falaram de uma especialista em constelação familiar. Primeiro, constelei com as almofadas. Eu sei, essa frase não faz nenhum sentido para você.”

Faz sim, miga. Porque também me falaram de um cara do palitinho na zl. Depois me falaram de um tratamento top com ondas de choque também na zl, mas na parte rica da zl.

“Me falaram então do “papa da acupuntura para ansiedade”. Me falaram de um curso cujo nome era Dançando com as Árvores. Me falaram de um troço chamado Fisioterapia GDS Aplicada na Dança Indígena.”

Aí me falaram de Quiropraxia no centro. Depois, me falaram sobre acupuntura para a cura de Fascite Plantar. E aí me falaram para jogar moedas e fazer um pedido na fonte do Templo Zulai.

“Estou tomando há três meses gotas de ouro. Ainda não senti nada.”

Fiz a simpatia do guaraná, do pó de guaraná (depois me falaram que era o guaraná errado). Fiz terapia convencional, terapia de luz, terapia com floral e, ao contrário da Tati, eu estou sentindo tudo. #Tamujuntomigasualoka.

Depois a louca sou eu”, de Tati Bernardi
Companhia das letras – 140 páginas
Avaliação: 3 caixotinhos (de zero a cinco) 

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