O blog Caixote Amarelo nasceu com a proposta de dialogar apenas com os livros de relatos, as biografias. Para minha surpresa, bons ventos sopraram durante essa empreitada e outros tipos de livros ganharam espaço. Digo empreitada porque já seria difícil pra caramba abrir o bloco de notas e escrever o que sinto sobre as obras e como elas me afetam, de maneira positiva ou não. Tudo fica ainda mais complexo quando clico em "publicar". Te vejo dentro do caixote.

Por Renata de Sá.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A bienal do livro chegou ao fim. É o fim da bienal?



Ontem terminou a 24ª edição da bienal internacional do livro de São Paulo. Com o tema histórias em todos os sentidos, o evento viveu (em vários sentidos) uma das suas piores edições.

Antes mesmo de entrar na feira, o visitante podia sentir uma certa dose de frustração. Com ingressos bem salgados, estacionamentos praticando valores fora da realidade, filas gigantes para o transporte gratuito do metrô até a feira (vice-versa), era preciso escolher bem uma data para visitar a bienal. Lá dentro, a decepção era ainda maior. As editoras e livrarias (principalmente, as pequenas) que ainda se arriscaram participar, foram engolidas pelas gigantes e colocadas completamente de escanteio no evento – fisicamente e culturalmente.

<Pausa solicitada pela garota do caixote>
Quem comprou um espaço de exposição na bienal do livro podia participar de reuniões, digamos estratégicas, com os organizadores da feira. Todas elas ocorreram meses antes do evento e tinham como objetivo “dar voz” aos clientes, criando uma feira mais democrática. Era possível, por exemplo, sugerir atividades, debates, oficinas e palestras com seus autores para a programação oficial – e também com o que as editoras poderiam contribuir (passagem, hospedagem, alimentação, entre outros) para que esses autores estivessem lá.
<Fim da pausa solicitada pela garota do caixote>

Ao ver a programação divulgada, foi bem fácil perceber que nada ou praticamente nada do que foi sugerido pelas pequenas editoras naquelas reuniões foram utilizadas. Pelo contrário, o que se viu durante esses 10 dias foi muito mais do mesmo. Os youtubers-escritores dominaram a “arena cultural”, carregando seu público fiel da internet, agora, na posição de consumidores de livros.

O “salão de ideias” foi outro espaço carimbado por figurinhas repetidas, que discutiam os livros e os leitores de livros, o que deixou a feira ainda mais sem uma identidade. Enquanto autores e ilustradores, dentro desses quadrados, debatiam (com o público bem reduzido) o futuro do mercado editorial, lá fora, pelos corredores da feira, era possível ver uma massa de visitantes em busca da selfie perfeita com um boneco gigante ou o cosplay de seu personagem preferido. O que se discutia dentro das áreas de debate como o “salão de ideias” e o “cozinhando com as palavras” não era o que maioria das pessoas queria ouvir. Notava-se, a cada atração, um grande número de cadeiras vazias.

Outro ponto bastante crítico foi a própria venda de livros. Com descontos magros e pouco atrativos, os stands, tirando os mesmos de sempre, estavam praticamente vazios. Os que tentavam driblar essa situação, buscavam enfiar goela abaixo dos visitantes os tais livros “fundo de catálogo” – aqueles exemplares encalhados que são vendidos a preço de banana, mas que também quase ninguém quer. Além disso, a facilidade de comprar pela internet, com descontos bem generosos, também contribuíram para esse resultado pouco expressivo.

A bienal-SP 2016 acabou e corre o risco de enfrentar novas mazelas se não pensar em uma nova estratégia e definir a sua verdadeira identidade. Nos vemos em 2018.

24ª bienal internacional do livro de São Paulo
De 26 de agosto a 4 de setembro
Pavilhão de Exposições Anhembi 
Avaliação: 2 caixotinhos (de zero a cinco)

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