O blog Caixote Amarelo nasceu com a proposta de dialogar apenas com os livros de relatos, as biografias. Para minha surpresa, bons ventos sopraram durante essa empreitada e outros tipos de livros ganharam espaço. Digo empreitada porque já seria difícil pra caramba abrir o bloco de notas e escrever o que sinto sobre as obras e como elas me afetam, de maneira positiva ou não. Tudo fica ainda mais complexo quando clico em "publicar". Te vejo dentro do caixote.

Por Renata de Sá.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A guia e “o guia” – uma voltinha à fabulosa Coreia do Norte

Amazônia resolveu dar uma passadinha pelo livro da semana
Terminei um trabalho, fiz as malas e decidi passar alguns dias longe do barulho, da internet, das pessoas... Claro que a missão de ficar uma semana inteira sozinha, apenas curtindo o solzinho e o barulho do mar falhou. Dois dias e meio após a início das minhas “férias”, lá estava eu querendo algum tipo de “agito”.

Numa rápida passada por um mercadinho perto do hotel, por conta, talvez, da pouca concorrência, sai de lá com um exemplar de Não conta lá em casa: um livro sobre um cara e seus três amigos, que decidiram fazer turismo nos lugares mais polêmicos e perigosos da mundo. Não estava turistando por nenhum lugar inóspito, mesmo assim, achei a “semelhança” (risos duplos) suficiente para levá-los comigo.

A viagem, no melhor estilo “o que é que eu tô fazendo aqui” rendeu histórias de diversos locais considerados altamente perigosos, como Mianmar, Irã, Iraque e Afeganistão. Decidi focar em um único destino: a Coreia do Norte – pela sua veia um tanto fechada (em que os raros turistas são proibidos de portar qualquer item de produção cultural ocidental) e pela forma que os próprios norte-coreanos se enxergam como nação. E por fim, pela dificultada encontrada pelos meus novos melhores amigos: “Dos perrengues mais diversificados, nada era maior do que o objetivo de entrar na Coreia do Norte a qualquer custo.”

Sentei na beirada da piscina do hotel com os pés na água (juro que eu tirei uma foto, mas não encontro em nenhum lugar) e embarquei na aventura de tentar, nem que minimamente, entender aquele país do ponto de vista de alguns brasileiros. Todo o trajeto foi feito acompanhado pela guia e pelo “guia”, incumbidos de levá-los, obviamente, pelos locais previamente agendados e organizados. E tudo era muito organizado. Até demais.

 “Seguindo mais um item da enorme lista de recomendações para o turista na Coreia do Norte, levamos presentes para nossos guias: flores para a mulher e uma camisa da seleção para o homem. Ao receber o regalo, pareceu meio confuso. Até que explicamos que se tratava de um uniforme oficial da seleção de futebol do Brasil. “Ohhh...”, ele exclamou e completou: Maradona.”

Manual de sobrevivência dos nossos
amigos do
Não conta lá em casa
Eles não precisaram muito para desconfiar de tamanha “hospitalidade”. Do outro lado do mundo, eu estava aflita, lendo com uma certa rapidez, torcendo para que nada acontecesse a eles. A cada virada de página, imaginava uma cena típica daqueles filmes de espionagem num eterno jogo de gato e rato. No entanto, a visita tornou-se uma agradável surpresa sobre um povo que vive dentro da sua própria bolha.

Assim que puderam conhecê-los mais de perto, enquanto mostravam os monumentos, a história e os acontecimentos que fizeram a Coreia de Norte se fechar dentro do si (claro que do ponto de vista de alguém de um coreano sem nenhuma informação externa), foi possível perceber sinceridade, aliado a uma certa ingenuidade do mundo que os cercam.

“(Numa das paradas), durante as apresentações no picadeiro, a guia exibia um olhar de puro encantamento e diversão sincera! Uma leve inocência que dificilmente veríamos em uma adolescente ocidental. Ficava mais claro que todas as lendas que ela e o Mr. Oh tinham nos apresentado, a adoração aos seus líderes, não eram conversa. Eles realmente acreditavam em tudo aquilo.”

E se realmente acreditam, talvez quem sabe, eles possam até mesmo serem felizes, vivendo longe de tudo isso, de toda informação, de todos os incidentes, de todos os crimes contra a humanidade que estão escancarados bem na nossa frente e que nada podemos fazer a respeito.

Não conta lá em casa – Uma viagem pelos destinos mais polêmicos do mundo”, de André Fran
Editora Record – 308 páginas
Avaliação: 4 caixotinhos (de zero a cinco)

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