O blog Caixote Amarelo nasceu com a proposta de dialogar apenas com os livros de relatos, as biografias. Para minha surpresa, bons ventos sopraram durante essa empreitada e outros tipos de livros ganharam espaço. Digo empreitada porque já seria difícil pra caramba abrir o bloco de notas e escrever o que sinto sobre as obras e como elas me afetam, de maneira positiva ou não. Tudo fica ainda mais complexo quando clico em "publicar". Te vejo dentro do caixote.

Por Renata de Sá.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Do ofício ao sacrifício

Mais de 100 histórias maravilhosas reúne os melhores textos
que Marina escreveu, inclusive "Um amor sem palavras"
Não lia quando criança.
Em casa, os livros eram poucos e para adultos.
Ler, na minha concepção, era coisa da escola e na escola.

Lembro que minha primeira vez numa livraria, para comprar um livro que eu realmente queria ler, ocorreu mais crescida, só que nem tanto, quando já andava de ônibus sozinha. Peguei o bus 3457, com destino St. Terezinha, e voltei para casa com meu exemplar debaixo do braço. Lá era assim mesmo, filhos-passarinhos cresciam rápido e com liberdade para bater asas e voar. Mas nem é desse livro que pretendo falar. Afinal, o livro nem era tão bom e eu nem o tenho mais.

Meus livros prediletos foram lidos na minha fase mais adulta, principalmente, dentro do metrô, por conta das longas viagens de casa até o trabalho ou até a faculdade. Morar afastada do centro da cidade parecia fora de propósito, até que me dei conta de que podia voar para longe, bem longe, mas quando voltava ao ninho, a família estava completa (pai, mãe, irmãs, tios, primos, avó...). E não tinha como carregar todo mundo conosco. E, talvez, esse nem fosse o objetivo.

Entre esses livros, Um amor sem palavras, de Marina Colasanti. O texto conta a história de uma sombra fujona, ressentida por conta da indiferença de sua árvore companheira. Marina expõe uma situação cotidiana a sombra que contava sobre a resistência da outra (a árvore) , de uma forma tão poética e tão profunda, capaz de fazer o leitor enxergar tantas sentidos e significados, que me fez precisar escolher apenas um deles para prosseguir.

Numa certa manhã, a sombra se sentiu rejeitada e não amada. E que todo seu esforço era indigno de um elogio sequer. Para a sombra, a árvore se comportava como se a outra não existisse. O tal descaso da árvore, do ponto de vista da pequena e ingênua sombra, ocorria porque a grandalhona cheia de galhos, folhas e frutos não a amava e também porque tinha muita coisa para fazer.

Para chamar sua atenção, a sombra passou a se comportar de maneira rebelde, quase infantil. Porém, nem mesmo assim, a árvore esboçava nenhum sinal (nem mesmo de reprovação), bem daquele jeitinho quando eu aprontava, mas minha mãe fingia não perceber, para não ralhar comigo, por algo tão pequeno, tão banal.

Por fim, quando todas as jogadas não deram resultados, eis que a pequena partiu. Afinal, não tinha e não conhecia raízes. Ao contrário dela (da árvore), eternamente presa no mesmo lugar. Talvez, isso nem tivesse passado pela cabeça da pobre sombra, mas quem sabe, ela não precisasse sair do lugar, afinal tinha tudo que queria ao seu redor. Ou mesmo, quando os filhos-passarinhos voltassem dos seus longos voos, saberiam onde pousar com segurança, em solo familiar.

Mesmo assim, foi morar ao pé de uma castanheira, dividindo espaço com outra sombra mais velha, que gostou da ideia de ter alguém para dividir algumas tarefas. Porém, num sopro de vento, a pequena soube notícias nada favoráveis da sua companheira que, ao que tudo indicava, passou a viver sozinha.

Parece que a árvore está sofrendo , alguém disse para a pequena sombra que, embora distante, procurava saber notícias de casa.

Com a falta de sombra ao seu pé, deu poucos frutos e sofre com o calor absurdo , outro alguém lhe disse também.

Pensou que a companheira, na verdade, poderia estar sentindo sua falta. Ou mesmo, de que até sempre sentiu, mas era incapaz de dizer. Não com palavras.

Até que retornou. A árvore continuava lá, de pé e, assim como nada disse quando a pequena partiu, nada foi dito pela sua volta. E não precisava, pois todos estavam de volta, as folhas e os frutos cresceram, as minhocas perfuravam a terra para facilitar a passagem da água da chuva, os animais voltaram a aproveitar da sombra, assim como a mãe deitava-se com seu bebê ao pé da árvore. Tudo tinha alcançado o equilíbrio novamente.

Quando voltou, pensou: “Era da natureza da árvore voltar-se mais para o céu do que para a terra. Era da natureza da sombra estar colada no chão e ocupar-se de pequenos seres. Era da natureza de ambas viverem assim lado a lado sem trocar palavra. E talvez fosse da natureza do amor existir mesmo sem palavra alguma”.

E foi da natureza de casa, mesmo com os poucos recursos, dar asas para as quatro filhas-passarinhas voarem, mas também retornarem seguras para a árvore-mãe.

Mais de 100 histórias maravilhosas, de Marina Colasanti
Entre elas, Um amor sem palavras
Global – 432 páginas
Avaliação: 4 caixotinhos (de zero a cinco)

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