O blog Caixote Amarelo nasceu com a proposta de dialogar apenas com os livros de relatos, as biografias. Para minha surpresa, bons ventos sopraram durante essa empreitada e outros tipos de livros ganharam espaço. Digo empreitada porque já seria difícil pra caramba abrir o bloco de notas e escrever o que sinto sobre as obras e como elas me afetam, de maneira positiva ou não. Tudo fica ainda mais complexo quando clico em "publicar". Te vejo dentro do caixote.

Por Renata de Sá.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Escrever é um acidente

No centro, Marcelo Rubens Paiva, Ana Cássia (de branco) e a mediadora Andréa Catrópa
Terminou anteontem a terceira edição da Pauliceia Literária – festival internacional de literatura de São Paulo. Entre os convidados, vários autores da literatura contemporânea. Resolvi separar três deles – Veronica Stigger, Drauzio Varella e Marcelo Rubens Paiva para o texto dessa semana.

Conheci Veronica na Casa das Rosas, no evento Isto não é um cachimbo. Na ocasião, ela falou da sua obra e de seu último lançamento, um livro quase impronunciável (Opisanie swiata). No entanto, pirei mesmo no livro Os anões, que conseguia juntar tudo o que era mais perverso no ser humano, mostrado por uma ótica, de certa forma, tão inocente, que me fez, muitas vezes, duvidar da minha própria sanidade quando sentia raiva dos anões por serem tão escrotos, mas ficar completamente desolada com o ataque em massa que sofreram.

Já o Drauzio Varella e seu Estação Carandiru veio muito antes, ainda no período pré-vestibular, como leitura obrigatória daquela faculdade que eu nem cheguei perto de entrar. Mas isso é uma outra história. Pra mim, a figura daquele tiozinho magricelo e de voz calma não condizia com o coletor de histórias tão marcantes e violentas que viveu no complexo penitenciário. Mas eu estava enganada. Ao ver seu discurso no debate Quebrando o Tabu, percebi o quanto Drauzio era um homem contundente e de opiniões fortíssimas (vários oclinhos para ele). <três

E por fim, Marcelo Rubens Paiva. Feliz ano velho foi meu livro predileto logo após a faculdade. Peguei emprestado uma das primeiras edições, portanto, um livro com pouca edição para o “politicamente correto”, segundo o próprio autor. Optei pela mesa do Marcelão (a mesa 10: ficção e confissão), que ele dividiu com a escritora portuguesa Ana Cássia Rebelo (uma mulher muito interessante e com um livro – Ana de Amsterdam – tão interessante quanto). Em breve, teremos um texto só dela. Me aguarde Ana.

Era minha estreia como ouvinte dele. Percebi, na verdade, que tudo era uma estreia. A primeira obra que li dele também era seu livro de estreia. E por fim, a própria figura da Ana. 

Já que a mesa era sobre ficção e também sobre confissão, eis que os dois se encaixaram no papel. Marcelo contextualiza suas histórias com fatos cotidianos, como o sequestro e morte do pai durante a ditadura militar, mas também passagens pessoais como quando o filho, Marcelo Rubens Paiva, se questiona sobre o quanto o pai, Rubens Paiva, foi irresponsável ao deixar mulher e cinco filhos.

Enquanto isso, a Ana, por conta de um casamento solitário, passa a escrever um blog contando suas angústias, tristezas e um profundo desejo de morrer. “Me sentia livre, mas quando o livro saiu criei um alter ego para justificar todas aquelas coisas. Mas não funcionou, estava me escondendo novamente. Troquei tudo pela primeira pessoa. A Ana que se encontra com homens na hora do almoço, sou eu. A Ana que se cansou de ser mãe, também sou eu”.

O que esses autores me mostraram, não só esses, mas todos que já passaram pelo Blog Caixote Amarelo, é que os fatos estão aí. As pessoas estão aí. O erros e acertos que cometemos estão aí. Colocar no papel é outra coisa. Escrevê-las, então, não passa de um acidente de percurso.

3º Pauliceia Literária – festival internacional de literatura de São Paulo
De 12 de setembro a 17 de setembro
Associação dos Advogados de São Paulo
Avaliação: 3 caixotinhos (de zero a cinco)

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