O blog Caixote Amarelo nasceu com a proposta de dialogar apenas com os livros de relatos, as biografias. Para minha surpresa, bons ventos sopraram durante essa empreitada e outros tipos de livros ganharam espaço. Digo empreitada porque já seria difícil pra caramba abrir o bloco de notas e escrever o que sinto sobre as obras e como elas me afetam, de maneira positiva ou não. Tudo fica ainda mais complexo quando clico em "publicar". Te vejo dentro do caixote.

Por Renata de Sá.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

O dia depois de amanhã

Sobe na pedra, dá uma olhadinha pra água (será que tá fria?), grita lá de cima para os companheiros que vai encontrar um tesouro perdido, faz um tibum na água com pose de tio Patinhas e... a vida nunca mais seria a mesma.

Depois ler algumas páginas, procurei ficar deitada na mesma posição que o autor de Feliz ano velho (1982) permaneceu, logo após acordar na UTI que, segundo ele era “uma espécie de ante-sala do céu ou do inferno”. Um sujeito ruim da cabeça é capaz de ficar louco quando enxerga apenas duas lâmpadas e quatro parafusos num teto branco e sem graça.

O livro de estreia de Marcelo Rubens Paiva é um eterno vai-e-vem de pessoas, de locais e de situações que o protagonista viveu antes e depois do acidente numa cachoeira que o deixou tetraplégico. Numa visão, muitas vezes, má, egoísta e completamente egocêntrica, ele não economiza no vocabulário baixo para descrever cenas, pessoas e lugares.

Durante a edição do Pauliceia Literária-2016, Marcelo contou que, hoje em dia, seu livro adquiriu um caráter negativo e que algumas passagens podem não se enquadrar no “politicamente correto”. Sim, Marcelão. O texto tem essa característica e me incomodou bastante durante a leitura.  

Porém, reeditar a obra, excluindo os jargões da época (perdi as contas de quantas vezes ele disse que alguém “transou” alguma coisa) e tirar todas as cenas em que você sente vontade de jogar o livro pela janela (como quando ele descreve sua relação com a primeira cuidadora), faria com que Feliz ano velho se perdesse no tempo em que foi concebido. Mesmo assim, não consigo encontrar um local, nem mesmo um espacinho em alguma prateleira para deixá-lo dentro desse caixote. Então, como diziam naquele famoso quadro de namoro na TV: “Hoje não, Márcio.

Feliz ano velho, de Marcelo Rubens Paiva
Objetiva – 268 páginas
Avaliação: 01 caixotinho (de zero a cinco)

Nenhum comentário:

Postar um comentário