O blog Caixote Amarelo nasceu com a proposta de dialogar apenas com os livros de relatos, as biografias. Para minha surpresa, bons ventos sopraram durante essa empreitada e outros tipos de livros ganharam espaço. Digo empreitada porque já seria difícil pra caramba abrir o bloco de notas e escrever o que sinto sobre as obras e como elas me afetam, de maneira positiva ou não. Tudo fica ainda mais complexo quando clico em "publicar". Te vejo dentro do caixote.

Por Renata de Sá.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O dia em que andei de bicicleta rosa numa ciclovia da periferia

Cadu pedala por uma ciclovia com sua poderosa
*Cadu Silva – especial para o Caixote Amarelo

Aceitei o convite de uma amiga para andar de bicicleta no feriado do Dia das Crianças. Recém-chegado, tenho pouca coisa para chamar de minha aqui, inclusive uma bike. Imaginando que os parques estariam cheios, optamos por andar na ciclovia perto da casa dela – assim, resolveria a questão de uma magrela para mim. De pé, no portão, estava minha amiga com duas bicicletas cor de rosa – uma para ela e outra para mim.

Estilosas, elas tinham cestinhas, sininhos e até mesmo uns frufrus no guidão. Subi na minha e partimos. Assim que entrei na ciclovia, me deparei com uma realidade que passa bem longe das ciclovias da avenida Paulista ou daquelas em bairros de classe média, que contam até com um serviço de um desses bancos, dividindo o trânsito entre ciclistas e motoristas. Lá era diferente. Estava numa ciclovia da periferia de São Paulo.

No primeiro trecho, bem ao meu lado, podia enxergar um terreno baldio completamente habitado por barracos e barracões, onde era possível ver famílias inteiras dividindo espaços menores que uma sala de espera de um consultório médico. Segui adiante, pedalando e acompanhando minha amiga, que, acostumada à paisagem, nem prestou atenção à cena.

Na sequência, passei por um grupo de crianças que brincava na rua. Só consegui ouvir os gritos da garotada elogiando minha poderosa.

      Da hora, tio, sua bicicleta” – um disse.
      “É super-rosa” – outro disse também.

Contive a gargalhada e continuei pedalando. E assim foi durante quase todo o trajeto; os adultos apenas acompanhavam com os olhos, e as crianças riam e apontavam. Entretido, acabei nem percebendo quando minha amiga gritou: “Olha o galinheiro”.

E lá estava, entre a faixa de ida e a de volta, um minigalinheiro com algumas galinhas, um galo e uns ovos. Tudo foi muito rápido e mal consegui ver os detalhes daquela beleza de galinheiro. Minha amiga disse que poderíamos parar na volta.

Entre uma pedalada e outra, entre os olhares dos adultos e as gargalhadas das crianças – completamente acostumado e já me achava um máximo com minha magrela cor de rosa –, vez ou outra dava para ouvir um rádio ligado bem alto, tocando música boa para pedalar em pleno feriadão. Do grupo de rap e suas batidas fortes que faziam os vidros do carro tremer ao sambinha que dizia para a vida te levar, cheguei ao ponto de retorno.

De volta, agora muito mais confiante, fui na frente. Afinal, nada de diferente poderia acontecer – exceto um quase atropelo de um homem que estava parado bem no meio da via exclusiva às bicicletas. Mal deu tempo de terminar de desviar dele e comecei a ouvir um galopar rápido de um cavalo. O barulho se intensificava à medida que eu avançava pela ciclovia; até que eu vi um cavalo em disparada na avenida. O animal, preso a uma charrete, corria sozinho pela rua praticamente vazia. Bem mais atrás, um grupo de crianças corria na direção do cavalo, mais para ver até onde o animal cavalgaria do que para freá-lo.

E eu, do banco da minha bicicleta rosa, continuei meu caminho, imaginando que uma história assim caberia perfeitamente num dos livros da escritora Eliane Brum. Ah, e tocando meu sininho de vez em quando.

O dia em que andei de bicicleta rosa numa ciclovia da periferia, por Cadu Silva
Avaliação: 3 caixotinhos (de zero a cinco)

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