O blog Caixote Amarelo nasceu com a proposta de dialogar apenas com os livros de relatos, as biografias. Para minha surpresa, bons ventos sopraram durante essa empreitada e outros tipos de livros ganharam espaço. Digo empreitada porque já seria difícil pra caramba abrir o bloco de notas e escrever o que sinto sobre as obras e como elas me afetam, de maneira positiva ou não. Tudo fica ainda mais complexo quando clico em "publicar". Te vejo dentro do caixote.

Por Renata de Sá.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Não é um anjo: é ‘apenas’ um bilionário

* especial para o Caixote Amarelo - Andrei Spinassé
Livro e cena do filme "Grand Prix", que mostra Fórmula 1
das antigas: Bernie chegou, e Fórmula 1 mudou
Um inglês que, para ganhar algum dinheiro, chegou a colher batatas na infância e que, no fim da adolescência, comprava e vendia motociclistas – em uma cidade de Londres que se reconstruía após a Segunda Guerra Mundial – tornou-se bilionário e até hoje é um dos empresários britânicos mais bem-sucedidos. A trajetória de Bernie Ecclestone, o chefão da Fórmula 1, é retratada em um livro chamado... Façamos uma pausa. Tudo isso é verdade, mas Não Sou um Anjo, como o próprio nome diz, está longe de apenas contar a parte bonita da vida de Bernard. O objetivo do escritor Tom Bower foi mostrar como o pequeno grande homem, que mudou a Fórmula 1 para sempre, chegou lá – deixando claros os métodos e as estratégias de um negociador nato.

Bernie conseguia convencer alguém que tinha carros para vender de que faria um grande negócio ao repassá-los todos a ele por um preço que em um primeiro momento parecia exorbitante. Isso só fazia parte do jogo. Conseguia em seguida revendê-los individualmente por muito mais, e assim começou a construir sua fortuna, parte da qual era gasta em cassinos. Alvo de uma investigação, Bernie disse o seguinte a um inspetor: “Todos os meus carros têm a quilometragem alterada”. Depois, com a voz mais séria, acrescentou: “Se você me processar, vai acabar tirando o emprego de muitas pessoas”. E assim escapou de uma condenação, justificando que o odômetro do veículo havia sido adulterado enquanto estava emprestado a outro vendedor.

Essas aspas foram retiradas do livro de Tom Bower, que usa essa técnica para dar melhor ritmo a Não Sou um Anjo, que, caso contrário, seria apenas uma narração de fatos sobre a vida de um homem que hoje tem 86 anos. O livro começa a ficar realmente interessante, porém, quando chega ao meio da vida do britânico: anos 1970. Havia tido experiência como piloto no início da fase adulta, mas, depois de acidentes, optou por se concentrar os negócios. Mas foi o automobilismo que o tornou um bilionário. Comprou a equipe Brabham de Fórmula 1 em 1971, e logo passou a ser um líder entre os donos das escuderias. A visão comercial dele estava à frente da dos demais: começou a negociar com os autódromo e os países que recebiam a categoria e, também, com as redes de televisão que queriam transmiti-la. Antes de Bernie fazer isso, imperava o amadorismo nas questões comerciais da Fórmula 1: as negociações com os circuitos, por exemplo, eram feitas por cada equipe separadamente.

Com Ecclestone liderando comercialmente a Fórmula 1 – mesmo após a venda da Brabham (com a qual Nelson Piquet foi campeão em 1981 e 1983, mas que foi muito mal na temporada 1987) – e explorando também a comercialização de camarotesdonos de equipe anteriormente com pouco dinheiro, como Ron Dennis, da McLaren, transformaram-se em milionários, já que a categoria como um todo cresceu. Mas Bernie lucrava muito mais que as equipes e a Federação Internacional de Automobilismo. O grande poder dele, ao longo do tempo, provocou a ira de diversas pessoas, o que o forçava a adotar táticas de pressão, de blefe e de ameaças, muito bem retratadas em Não Sou um Anjo, para o qual Tom Bower colheu depoimentos de diversas pessoas que conviviam ou negociavam com Bernie. E o livro não trata apenas de negócios: os casamentos de Bernie também são abordados.

Um dos últimos capítulos da participação de Ecclestone na Fórmula 1, no entanto, não pôde ser escrito por Bower em 2010, pois só aconteceu em setembro de 2016, quando foi anunciada a venda da Fórmula 1, que tem valor de US$ 8 bilhões (incluindo dívidas), para a norte-americana Liberty Media por US$ 4,4 bilhões. Bernie ainda continua como CEO da categoria, cujo do GP do Brasil ocorreu ontem. O britânico vem bastante ao país: sua fazenda, onde é cultivado café, fica em Amparo, no interior de São Paulo. Além disso, é casado com a brasileira Fabiana Flosi.

Não Sou um Anjo, de Tom Bower
Novo Conceito – 494 páginas
Avaliação: 04 caixotinhos (de zero a cinco)

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