O blog Caixote Amarelo nasceu com a proposta de dialogar apenas com os livros de relatos, as biografias. Para minha surpresa, bons ventos sopraram durante essa empreitada e outros tipos de livros ganharam espaço. Digo empreitada porque já seria difícil pra caramba abrir o bloco de notas e escrever o que sinto sobre as obras e como elas me afetam, de maneira positiva ou não. Tudo fica ainda mais complexo quando clico em "publicar". Te vejo dentro do caixote.

Por Renata de Sá.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Cara Chimamanda Ngozi Adiche

Crédito: divulgação oficial (chimamanda.com)
Li o seu manifesto Para educar crianças feministas e achei poético. Ah, esqueci de me apresentar: meu nome é Renata e tenho um blog, o Caixote Amarelo, um lugar em que procuro discutir os livros de relato. Ao perceber que você conseguiu explorar um assunto de- licado, mas de um jeito tão íntimo, optei em fazer um texto também em forma de carta, tornando a nossa conversa mais pessoal.

Quero ressaltar uma parte, logo no começo da sua carta, quando você responde ao pedido de sua amiga para ensiná-la a criar uma filha feminista. Você diz assim: “havia observado muito, ouvido muito e pensado ainda mais”. Com certeza, o seu relato me fez pensar muito mesmo.

E, de cara, na primeira sugestão de como seria possível criar um filho assim, você diz: “nunca se desculpe por trabalhar”. Por aqui, alguns políticos acreditam que mulher deve ganhar menos porque tem licença-maternidade. Veja o absurdo de tal afirmação.

Mas, como dizem, o diabo mora nos detalhes. Nas placas dentro dos ônibus e dos metrôs têm aqueles bonequinhos que identificam a prioridade daquele banco. Tem o bonequinho para os idosos, para as grávidas e para as MULHERES com crianças no colo. Não há bonequinho para homens segurando crianças no colo. Assim como os trocadores infantis nos banheiros públicos. Sempre que possível, pergunto se existem trocadores também nos banheiros masculinos. Geralmente, a resposta é não.

Você poderia me perguntar: Mas Renata, os homens no seu país não trocam seus bebês em banheiros públicos ou não carregam seus bebês no transporte coletivo? Sim, eles fazem isso. Porém, estamos tão habituados a seguir certas “regras”, que nem nos damos conta de que, muitas vezes, tá tudo errado, até no detalhe, aparentemente insignificante.

Querida, Adiche, eu poderia passar horas discutindo cada parte do seu texto primoroso. Mas, assim como os poucos exemplos nessa carta, existem outros pequenos detalhes (me desculpe a redundância necessária) que precisam ser observados, ouvidos e pensa- dos. Estamos um oceano de distância, mas nunca estivemos tão próximas nas questões mais básicas do dia a dia.

“Para educar crianças feministas”, de Chimamanda Ngozi Adiche
Companhia das letras – 86 páginas


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