O blog Caixote Amarelo nasceu com a proposta de dialogar apenas com os livros de relatos, as biografias. Para minha surpresa, bons ventos sopraram durante essa empreitada e outros tipos de livros ganharam espaço. Digo empreitada porque já seria difícil pra caramba abrir o bloco de notas e escrever o que sinto sobre as obras e como elas me afetam, de maneira positiva ou não. Tudo fica ainda mais complexo quando clico em "publicar". Te vejo dentro do caixote.

Por Renata de Sá.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

30 vezes que o Bloomsday em SP poderia não ter acontecido

Fachada da Casa das Rosas em SP


O tradicional Bloomsday, o dia do Bloom, principal personagem do romance Ulysses, em que as mais de mil páginas da obra contam um único dia: 16 de junho, foi comemorado pela 30ª vez em SP. A festa para celebrar um dos maiores e mais importantes escritores também foi realizada em outras cidades. No entanto, a obra e, conse- quentemente, o Bloomsday poderiam nunca ter acontecido, já que, em muitos lugares, James Joyce vinha sofrendo censura e diversas editoras rejeitaram Ulysses.

Sylvia Beach, a primeira dona da livraria Shakespeare and Company, sem nenhuma experiência editorial, aposta e decide publicar a 1º edição. O que parecia ser um desafio, acabou se tornando um martírio, já que os delírios de Joyce com a obra colocaram em risco mais uma vez a publicação do livro.

De acordo com Jean-Paul Caracalla, autor de Os exilados de Montparnasse, “a veneração de Sylvia é ilimitada e ela cede a todos os caprichos dele” como quando Joyce exigiu que a capa fosse azul cor da bandeira grega, algo simplesmente não encontrável em lugar nenhum. Ou quando todas as datilógrafas desistiram de copiar os textos feitos a mão, que passavam por constantes alterações. “Nove desistiram de bater o famoso capítulo de Circe”.

Faltando pouco menos de dois meses para o seu aniversário de 40 anos, em 02 de fevereiro de 1922, Joyce decide que quer o livro impresso naquela data. E mais uma vez, a livreira atende ao pedido e, mesmo com uma série de erros tipográficos, ela consegue dois exemplares: um para ele e outro para expor na Shakespeare and Company (alguma semelhança com o Diabo veste prada?!?).

A primeira tiragem foi paga bem no estilo “vaquinha” e proporcionou a impressão de cem exemplares. Mesmo assim, ainda não era o suficiente e, muitas vezes, Sylvia chegou até tirar do próprio lucro para bancar uma nova impressão. Fato que deixou a livraria com sérios problemas financeiros.

Em 1930, Ulysses era amplamente pirateado nos Estados Unidos (sabe quem é pirateado fora do Brasil? Paulo Coelho.), fazendo com que o autor tomasse medidas extremas, negociando com agentes internacionais e deixando Sylvia cada vez mais afastada das decisões, até o término não amigável da colaboração entre os dois. Apenas em 1939, ou seja, 17 anos depois da empreitada de Sylvia Beach, a suspensão que recaia sobre o livro deixou de existir e rapidamente uma grande editora passou a editá-lo em solo americano.

“Ulysses”, de James Joyce
Editora Penguin-Companhia – 1112 páginas

Os exilados de Montparnasse”, de Jean-Paul Caracalla
Editora Record – 288 páginas


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