O blog Caixote Amarelo nasceu com a proposta de dialogar apenas com os livros de relatos, as biografias. Para minha surpresa, bons ventos sopraram durante essa empreitada e outros tipos de livros ganharam espaço. Digo empreitada porque já seria difícil pra caramba abrir o bloco de notas e escrever o que sinto sobre as obras e como elas me afetam, de maneira positiva ou não. Tudo fica ainda mais complexo quando clico em "publicar". Te vejo dentro do caixote.

Por Renata de Sá.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

O triste fim da triste história de Eredegalda

Exemplar emprestado da Biblioteca Milton Santos
Saiu uma notícia de que o MEC decidiu recolher o livro En- quanto o sono não vem por causa de um tema abordado em uma das his- tórias. Após uma série de reclamações dos pais, o uso em sala de aula foi proibido e os exem- plares serão reco- lhidos em todo o país. Considerado inadequado trabalhar o incesto com crianças de 7 a 8 anos, o Ministério da Educação optou em mandar os mais de 90 mil exem- plares da obra para as bibliotecas públicas.

Fiquei com a impressão de que o MEC quis apenas abafar a situação depois dos questionamentos dos pais, afinal, essas crianças que receberam o livro e estavam trabalhando em sala de aula, também frequentam bibliotecas públicas, logo, elas podem ter contato com o livro da mesma maneira. Não existe “faixa etária” dentro das bibliotecas, bem como nas livrarias. Os leitores entram e pegam o que quiserem ler.

Além disso, trata-se de um erro primário, já que essa criança, ao invés de aprender a discutir um tema tão delicado dentro da sala de aula, com o respaldo de um mediador, ela vai se aventurar sozinha numa leitura difícil, porém, não impossível e muito menos proibida para crianças menores. Claro que esse não é o único tema considerado tabu para leitores iniciantes. Algumas pessoas defendem que os livros não deveriam abordar temas complicados, como a morte ou a gravidez.

Engana-se quem imagina que as crianças não estariam prontas para entender determinados assuntos. Corretamente trabalhados, alguns temas poderiam ajudar no fortalecimento dessa criança perante o mundo que a cerca, afinal, uma pesquisa realizada pelo Hospital das Clínicas de São Paulo (2011) revela que quatro em cada dez crianças sofrem abusos dos pais ou padrastos, seguido por tios e primos. E que só 3% ocorre com estranhos. Será que, ao trabalhar esse livro na escola, essa criança pudesse perceber o que estaria acontecendo com ela dentro de casa e, de alguma forma, buscaria um meio para denunciar o agressor?

“Enquanto o sono não vem”, de José Mauro Brant
Editora Rocco – 50 páginas



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