O blog Caixote Amarelo nasceu com a proposta de dialogar apenas com os livros de relatos, as biografias. Para minha surpresa, bons ventos sopraram durante essa empreitada e outros tipos de livros ganharam espaço. Digo empreitada porque já seria difícil pra caramba abrir o bloco de notas e escrever o que sinto sobre as obras e como elas me afetam, de maneira positiva ou não. Tudo fica ainda mais complexo quando clico em "publicar". Te vejo dentro do caixote.

Por Renata de Sá.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Não pode pegar nada do amiguinho sem pedir – exceto em Brasília


(Vista da Penitenciária Feminina da Capital, em São Paulo
- crédito Marlene Bergamo)
Se você nasceu em uma família que procura seguir as regras para se viver em uma sociedade, muito provavelmente, deve ter ouvido de um pai, de uma mãe que você não pode pegar o lápis do amiguinho de classe sem pedir. Esses adultos também devem ter ensinado o motivo pelo qual não se deve pegar o que não nos pertence, mostrando que é errado e, muitas vezes, se essa criança crescer e continuar a pegar o que não é seu, existirá uma grande chance dela pagar por isso na cadeia.

Exceto em Brasília. Exceto ainda se for um dos nossos políticos. Mais exceto ainda, se for rico. Em Prisioneiras, de Drauzio Varella, não há espaço para a exceção. Apenas para a regra. Como diz o ditado popular, a regra é clara, e as nossas cadeias brasileiras estão lotadas de criminosos (não há dúvida disso), mas principalmente, de criminosos pobres.

Das mais de duas mil mulheres que estão na Penitenciária Feminina da Capital, em São Paulo, a maioria esmagadora veio de uma classe social baixa, com pouquíssimas oportunidades e acesso à informação. Drauzio nos mostra uma realidade cruel em que, se uma mulher presa não tem, pelo menos, um ou dois filhos, provavelmente, é gay ou estéril.

Mas se estamos falando de exceções, ter dois filhos é novamente uma delas. A regra mostra que essas mulheres têm de quatro filhos para mais. As crianças, após a prisão das mães, são deixadas com parentes ou encaminhadas para um orfanato. Isso porque, mais uma vez, a regra é: muitas dessas mulheres são mães solteiras.

Lá dentro – ou até mesmo como motivo pela prisão – essas mulheres são ou se tornam usuárias de drogas (crack, principalmente). E assim como aqui fora, lá dentro elas não só utilizam como se tornam devedoras de traficantes. E cadeia tem regra própria – por mais absurdo que pareça. Divididas em um código de cores, as detentas são marcadas e têm prazos para pagar pela dívida. Vale até pedir recurso para a família e depositar direitinho na conta bancária do fornecedor.

E por falar em família, ao contrário do que ocorre nas penitenciárias masculinas, em que as filas de visitantes são gigantes – formadas na grande maioria por mulheres, mães e filhos –, as femininas são praticamente inexistentes. De acordo com o escritor, os namorados/maridos aparecem no primeiro final de semana e vão diminuindo até nunca mais as visitarem; as mães, muitas vezes, sentem vergonha de ter uma filha na cadeia (o que não ocorre, necessariamente, com os filhos homens).

As cadeias femininas estão lotadas de criminosas – mulheres pobres das periferias, sem instrução e, muito menos, boas oportunidades na vida. Elas vão sair de lá mais pobres e, com certeza, com mais dificuldades ainda de sair desse ciclo de vício, de prostituição para pagar pelo vício, e de, possivelmente, retornar para cumprir mais uma pena. Enquanto que nossos políticos (brancos, ricos e ladrões), mesmo pegando muito mais que um lápis do amiguinho, viverão bem longe dessa realidade, simplesmente porque são a exceção.

"Prisioneiras", de Drauzio Varella
Companhia das letras  290 páginas

  

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