O blog Caixote Amarelo nasceu com a proposta de dialogar apenas com os livros de relatos, as biografias. Para minha surpresa, bons ventos sopraram durante essa empreitada e outros tipos de livros ganharam espaço. Digo empreitada porque já seria difícil pra caramba abrir o bloco de notas e escrever o que sinto sobre as obras e como elas me afetam, de maneira positiva ou não. Tudo fica ainda mais complexo quando clico em "publicar". Te vejo dentro do caixote.

Por Renata de Sá.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Sim, eles estão todos mortos

Quando recebi o convite do Grupo Editorial Record para escrever sobre o livro Assim na terra como embaixo da terra, da escritora Ana Paula Maia, nem imaginava o que me esperava. Sigo alguns rituais em uma leitura, sendo que o primeiro deles é me desligar do mundo externo – principalmente porque “minha hora de leitura livre” é dentro de um metrô cheio a caminho do trabalho. Antes mesmo do texto, folheio a quarta capa, as orelhas e me deparo com um relato da Marcia Tiburi indicando que a autora trouxe a colônia penal de Kafka para uma realidade brasileira.

Pronto. Puxo na memória trechos daquele livro e só consigo pensar em um estado constante de sufocamento e desconforto. Inicio a leitura esperando o pior. Sabem aquelas histórias que você vai lendo, mas já imagina 30 páginas na frente? Eu estava assim. De uma forma bastante louca me vi dentro daquela prisão, no meio do nada, aguardando um oficial que viria desativar o lugar, mas que nunca chegava.

A agonia passou a tomar conta da minha leitura. Lendo algo aparentemente rotineiro: Um preso que prepara o almoço, a minha cabeça já estava lá na frente e eu só conseguia pensar: Sim, eles estão todos mortos. Um dos prisioneiros observava o que estava acontecendo – e assim como eu, ele sabia o que viria nas próximas páginas – e, por isso, decidiu fugir. Só que para o plano funcionar, ele teria que amputar o próprio pé para escapar da tornozeleira, que segundo relatos, era capaz de explodir ao menor sinal de fuga.

Curiosamente, esse livro começou a ser lido no metrô, mas terminou na cama. Há pouco mais de cinco dias eu fiz uma cirurgia no pé esquerdo e estou imobilizada. Passei a me sentir na pele de Bronco Gil, ou pelo menos, a entender o quanto é difícil ser privado de andar livremente.

Ao decidir arrancar o próprio pé para fugir, o personagem me mostra que, mesmo privado de todos os seus direitos – alguns até bem básicos e obrigatórios – aquele homem estava disposto a arriscar. Isso só me fez entender que, mesmo tentando tirando tudo de uma pessoa, ninguém é capaz de arrancar um dos instintos mais básicos, que é a necessidade de sobreviver.

Bronco Gil, continuo a minha leitura e espero que seu instinto de sobrevivência seja tão forte quanto eu imagino. Te vejo na portão de entrada da colônia penal.

 "Assim na terra como embaixo da terra", de Ana Paula Maia
Editora Record – 144 páginas

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