O blog Caixote Amarelo nasceu com a proposta de dialogar apenas com os livros de relatos, as biografias. Para minha surpresa, bons ventos sopraram durante essa empreitada e outros tipos de livros ganharam espaço. Digo empreitada porque já seria difícil pra caramba abrir o bloco de notas e escrever o que sinto sobre as obras e como elas me afetam, de maneira positiva ou não. Tudo fica ainda mais complexo quando clico em "publicar". Te vejo dentro do caixote.

Por Renata de Sá.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O dia que Gay Talese foi enganado por si mesmo

Gay Talese é um gênio (e ponto).
Um dos nomes mais famosos do chamado new jornalism – uma mistura que combina técnicas do romance com a não ficção, o escritor é uma máquina de publicar best sellers. Estudado em universidades de comunicação do mundo todo, fui mais uma que leu seus livros.

Porém, até mesmo os gênios podem cometer falhas. Em O voyeur, sua mais recente obra, Talese foi enganado por si mesmo. Não há como saber quais motivos levaram um talentoso escritor, experiente no campo do jornalismo, esquecer da primeira coisa que qualquer estudante de comunicação aprende nos primeiros dias de aula: checar, checar e checar... e na dúvida, checar novamente.

O voyeur conta a história de um homem que comprou um motel e o adaptou para conseguir bisbilhotar o que ocorria com os hóspedes na intimidade dos quartos. O proprietário o fez por anos e ainda manteve tudo registrado em um diário.

No entanto, os primeiros conflitos da história acorrem durante o período de apuração dos fatos – um deles é sobre as datas em que o motel foi comprado e o início dos registros, ocorrido 3 anos antes. Em outro momento, um possível assassinato foi presenciado num dos quartos, só que não existia nenhum registro da polícia.

Apesar de saber sobre esses buracos na história, o escritor continuou a escrever o livro. Quando os primeiros trechos começam a ser divulgado para a imprensa, rapidamente outros trechos confusos começam a aparecer. Mesmo o diálogo com o proprietário do motel ter iniciado há 30 anos, o livro só foi publicado recentemente; isso daria tempo e mecanismos para o escritor confirmar alguns dados, inclusive o mais grave deles, a venda da propriedade – fato nunca relatado pelo voyeur e muito menos checado por Talese.

Embora tenha afirmado categoricamente em algumas passagens da história que não podia confiar na sua fonte, Gay Talese cometeu o maior erro de todos – não confiar 100% na sua própria pesquisa –, e assim, ser enganado por si mesmo. 

O voyeur – o grande jornalista americano em uma reportagem sobre obsessão e morte”, de Gay Talese
Companhia das letras – 272 páginas

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